Agricultura familiar e mudança global do clima: oportunidades e desafios pós-COP30

Artigo de Diretor Técnico do Sebrae apresenta caminhos práticos e colaborativos para tornar a sustentabilidade no campo mais justa, acessível e valorizada

As discussões sobre sustentabilidade hoje influenciam diretamente a organização das economias, dos mercados e das cadeias produtivas, mas muitas vezes ficam distantes da realidade de quem produz os alimentos. No campo, especialmente na agricultura familiar — um dos pilares da segurança alimentar no Brasil —, os desafios seguem concretos: acesso a crédito, custos de produção e viabilidade econômica. Ainda assim, uma revolução silenciosa da sustentabilidade avança no meio rural, impulsionada pelas mudanças do clima e pelo protagonismo conferido aos pequenos e médios produtores na agenda internacional após a COP30. 

Longe dos grandes fóruns, esses agricultores já adotam práticas sustentáveis, mas enfrentam dificuldades para mensurá-las e transformá-las em oportunidades de mercado. 

É nesse contexto que se insere o artigo de Marcelo Lessa Medeiros Bezerra, Diretor Técnico do Sebrae Goiás, que apresenta caminhos práticos e colaborativos para tornar a sustentabilidade no campo mais justa, acessível e reconhecida.

Marcelo Lessa Medeiros Bezerra, Diretor Técnico do Sebrae Goiás

A Silenciosa Revolução da Sustentabilidade no Campo

Por Marcelo Lessa Medeiros Bezerra

O debate sobre sustentabilidade não é recente, tampouco passou despercebido pela sociedade global. Desde as preocupações com o buraco na camada de ozônio, passando pelo aquecimento global, até o atual contexto das mudanças climáticas, consolidou-se a compreensão coletiva de que transformações estão em curso — e, sobretudo, de que ações concretas são necessárias.

Nesse cenário, conglomerados financeiros, grandes corporações, governos e instituições relevantes têm estruturado iniciativas que, na prática, redefinem a forma como os sistemas econômicos e os mercados globais operam. Essas iniciativas moldam padrões, criam exigências e estabelecem novos referenciais para o funcionamento dos negócios, influenciando cadeias produtivas inteiras.

Entretanto, distantes dos corredores diplomáticos, dos grandes fóruns internacionais e dos centros decisórios globais, encontram-se os pequenos produtores rurais. No cotidiano do campo, suas preocupações são imediatas e coerentes: o custo dos insumos produtivos, o acesso ao crédito e o cumprimento de compromissos financeiros.

Assim como qualquer cidadão, os homens e mulheres do campo organizam suas decisões a partir das necessidades de suas famílias e da viabilidade de suas atividades. E como a maioria, enfrentam dificuldades reais para compreender — e, sobretudo, colocar em prática — a complexa e acelerada agenda verde global, frequentemente formulada em linguagem técnica e distante de suas realidades.

Não se trata de convencer os produtores rurais de que precisam ser sustentáveis. Em grande medida, eles já o são. O desafio está em traduzir essa realidade, torná-la mensurável e reconhecida, sem transferir apenas para o produtor o ônus dessa transição. É fundamental ter clareza de que esse custo não pode recair exclusivamente sobre um setor que historicamente opera com margens reduzidas e elevada vulnerabilidade.

Diante desse desafio, surge a pergunta central: como avançar de forma justa, eficaz e inclusiva?

Embora exista a discussão se as atividades rurais são — ou podem se tornar ainda mais — ambientalmente sustentáveis, é evidente que o produtor rural, sobretudo o agricultor familiar, não dispõe de capacidade financeira para arcar com os custos de mensuração, comprovação ou investimentos adicionais necessários para evidenciar essa sustentabilidade. Se a adoção de uma solução nesse sentido dependesse exclusivamente do produtor, ela simplesmente não ocorreria.

Contudo, de acordo com avaliações do Sebrae, empresas compradoras de produtos agropecuários possuem interesse crescente — e responsabilidade — em demonstrar a sustentabilidade de suas operações. Atuando em mercados cada vez mais influenciados pelo consumo consciente, por exigências regulatórias e pela atenção crescente da sociedade, as organizações são cobradas pela sustentabilidade não apenas de suas operações diretas, mas de toda a sua cadeia de suprimentos.

É a partir da dinâmica de atuação dessas empresas compradoras que emergiu o principal insight: “suas cadeias de suprimentos são compostas por dezenas, centenas e, em muitos casos, milhares de pequenas propriedades rurais”.

Com a compreensão dessa lógica de corresponsabilidade econômica, identificamos potenciais financiadores de uma solução ao setor e, sobretudo, seus interesses legítimos, claramente alinhados aos interesses dos consumidores, dos reguladores, do sistema financeiro e da agenda climática global.

Uma nova solução

Assim, nos últimos três anos lideramos um trabalho em rede envolvendo sete estados brasileiros. Enquanto Sebrae — uma das instituições de maior credibilidade e capilaridade do Brasil —, assumimos o papel de articuladores desse esforço nacional. Mobilizamos, em todo o País, empresas que denominamos de “âncoras”, para indicarem produtores rurais de suas cadeias de suprimentos. Esses produtores passaram a receber consultores do Sebrae, responsáveis por aplicar uma solução que desenvolvemos para mensurar as emissões e remoções de Gases de Efeito Estufa (GEE) nas atividades rurais.

Nosso mérito na vertente técnica da solução desenvolvida não residiu na criação de novos indicadores ou na condução de pesquisas agropecuárias inéditas para uma calculadora de GEE. Ao contrário, partiu da decisão estratégica de integrar, em uma única ferramenta operacional simples, fontes oficiais amplamente reconhecidas e contemplar a heterogeneidade da produção rural brasileira de pequena escala. Pois sabemos que em uma mesma propriedade coexistem atividades como leite, carne, florestas, frutas, pastagens e grãos — complexidade difícil de capturar, mas essencial para uma abordagem realista e prática.

Toda a estratégia e abordagem tática e operacional foi conduzida no âmbito do Polo de Referência Sebrae em Agronegócio, iniciativa criada para fortalecer e dar escala ao trabalho em rede do Sistema Sebrae no tema agro. O Polo materializa, de forma concreta, a capacidade institucional de articulação, integração de parceiros e mobilização territorial, funcionando como plataforma de convergência entre conhecimento técnico, políticas públicas, mercado e produção rural.

O teste de campo da ferramenta foi denominado de “Piloto Biomas”, que contemplou o inventário de 216 propriedades rurais, indicadas por 38 empresas âncoras, abrangendo mais de 55 mil hectares. Os resultados foram reveladores, não apenas pelos indicadores obtidos, mas pela principal constatação obtida ao longo de todo o processo de operação, teste e validação em rede.

Observamos atores prontos para aplicar a ferramenta em escala regional, buscas de parceria para atender exigências de fundos de desenvolvimento que demandam indicadores de sustentabilidade, poderes públicos inquietos à possibilidade de apresentá-la a assentamentos e comunidades, associações dispostas a utilizá-la na certificação de cadeias produtivas em biomas inteiros, entre tantos outros casos.

O que inicialmente temíamos como resistência pragmática, converteu-se na constatação de uma revolução silenciosa da sustentabilidade no campo. O setor produtivo revelou estar pronto para avançar, mobilizados pela possibilidade concreta de utilização da solução desenvolvida.

Avanços na COP em Belém

Durante a COP30, tivemos a oportunidade de apresentar, ainda que de forma introdutória, os contornos desse trabalho. Não buscamos centralizar protagonismos, mas transferi-los a quem de fato os merece: os produtores rurais e toda a rede que os apoia. No esforço coletivo sintetizado pelo movimento Juntos Pelo Agro, avançamos com uma solução concreta que representa uma verdadeira virada de chave. De forma integrada, os produtores passam a ter acesso a uma ferramenta robusta de gestão da sustentabilidade, acessível e aplicável à realidade do campo.

Acreditamos em soluções onde todos ganham. Defendemos que os pequenos empreendedores rurais sejam protagonistas de uma nova dinâmica de mercado, munidos de instrumentos que evidenciem seu compromisso com a sustentabilidade e que sejam, por isso, reconhecidos e remunerados.

A solução estruturada pelo Sebrae se caracteriza por sua completude e flexibilidade. Trata-se de uma ferramenta aberta ao aprimoramento contínuo, à medida que a ciência e a prática apontam novos caminhos, acompanhada de um programa de capacitação para consultores e técnicos de campo. O processo resulta na entrega ao produtor de um plano de melhorias viáveis, relatórios gerenciais, indicadores de acompanhamento e um sistema plenamente passível de auditoria independente — reunindo credibilidade institucional, rigor técnico e relevância comercial.

Como dizia o professor e ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli, o Brasil soube tropicalizar a produção de alimentos. Agora, essa rede em expansão assume o compromisso de avançar também na construção do maior plano descentralizado, com base no empreendedorismo rural, para o aumento da sustentabilidade em áreas rurais produtivas no cinturão tropical.

Ao setor rural, nosso reconhecimento. Aos produtores e às redes que os sustentam, nosso apoio permanente. Ao leitor interessado em sustentabilidade, inovação e trabalho em rede, colocamos esta contribuição à disposição em https://polosebraeagro.sebrae.com.br/cop30/  

Crédito da foto principal: Unplash