a juventude nas negociações do clima: avanços, lacunas e o legado da COP30
Novo estudo detalha a trajetória da participação juvenil nos debates climáticos e analisa como as demandas dos jovens foram atendidas (ou não) nas principais decisões da cúpula do clima em Belém
A emergência climática em que vivemos coloca em jogo o futuro das próximas gerações, e deixar a juventude fora das decisões que vão moldar esse futuro é, ao mesmo tempo, injusto e estrategicamente insustentável. Essa é a premissa inicial da Nota Técnica “Engajamento dos Jovens nas Negociações do Clima”, produzida pela equipe técnica do Route to Belém.
O estudo traz dados históricos e negociações recentes, incluindo as da COP30, para mostrar como a participação real da juventude amplia a ambição e traz mais legitimidade e efetividade para os acordos sobre mudança global do clima.
Apresentando os jovens como agentes transformadores, a Nota Técnica detalha a trajetória da participação juvenil nas negociações climáticas e mostra como ela ganhou forma a partir dos anos 90, com presença tímida nas primeiras COPs. “O cenário mudou em 2005, na COP11, quando nasceu a YOUNGO (Organizações Não Governamentais da Juventude, na tradução para o português) — hoje reconhecida oficialmente como a constituinte de crianças e jovens dentro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Essa institucionalização permitiu que jovens passassem de observadores dispersos a uma força organizada, com direito a declarações oficiais, propostas de texto e articulação contínua dentro das conferências”, destaca José Miguez, autor do estudo.
Entre 2009 e 2017, essa presença ganhou nova escala. A COP15, em Copenhague, marcou a virada na visibilidade do engajamento jovem, acompanhada pelo fortalecimento massivo das Conferences of Youth (COYs), que passaram a preparar posições políticas globais antes das COPs. Ao longo da década, redes nacionais e regionais se expandiram, multiplicando iniciativas e ampliando a participação de jovens de diferentes territórios do mundo. O período consolidou a juventude como ator coletivo global dentro da governança climática.
O efeito Greta
A explosão veio entre 2018 e 2019 com o movimento Fridays for Future, iniciado pela ativista sueca Greta Thunberg. As greves escolares se transformaram em mobilização planetária: milhões de jovens foram às ruas em 2019, em milhares de cidades, cobrando urgência e responsabilização política. O impacto foi imediato: a juventude deixou de ser tratada como “geração futura” e passou a influenciar diretamente o poder público, agendas eleitorais e pressão sobre negociadores, tornando-se protagonista nas conversas sobre ambição climática.
A partir de 2021, o engajamento juvenil entrou em nova fase — a da consolidação institucional. A COP26 inaugurou o cargo de Youth Climate Champion e abriu espaço para referências formais às demandas dos jovens em decisões oficiais. A COP27 instalou o primeiro Pavilhão da Juventude na zona azul e aprovou o Plano de Ação de Educação Climática.
A COP28 multiplicou bolsas e mecanismos de participação, enquanto a COP29 estruturou diálogos diretos entre jovens e negociadores e ampliou a presença de delegados juvenis. No Brasil, o caminho para a COP30 seguiu essa tendência: o país nomeou Marcele Oliveira como Jovem Campeã do Clima, reforçando o protagonismo juvenil na preparação da conferência.
Protagonismo jovem na COP30
Nas atividades preparatórias da COP30, a voz das juventudes tradicionais, periféricas e do Sul Global ganhou centralidade. A localização em Belém facilitou a participação de jovens latino-americanos e amazônicos, trazendo à mesa temas como justiça climática, direitos territoriais, bioeconomia e saberes tradicionais.
Eventos na Pré-COP reuniram mais de 300 jovens, que mapearam mais de 230 iniciativas globais e ampliaram a pressão por mecanismos permanentes de participação e escuta dentro da estrutura da conferência.
E durante a cúpula do clima em Belém, como foi a participação dos jovens?
“O estudo mostra como a conferência incorporou a equidade intergeracional e a inclusão juvenil no “Pacote Político de Belém”, ainda em consolidação. As decisões analisadas — do Mutirão Global ao Programa Tecnológico de Belém, passando pelo Balanço Global, Transição Justa e o Objetivo Global de Adaptação — reconhecem jovens como atores essenciais e criam canais formais de participação, exigem dados desagregados por idade e vinculam educação, tecnologia, empregos verdes e financiamento às necessidades da próxima geração”, explica Luciano Schweizer, coautor do estudo.
“No entanto, embora a COP30 tenha oferecido instrumentos normativos e processuais robustos, a Nota Técnica também aponta lacunas estratégicas. Um exemplo disso é o fato de não ter sido criado um mecanismo dedicado, com financiamento específico, para a juventude no âmbito da UNFCCC, nem a garantia de assentos com direito a voto em órgãos decisórios”, complementa Thiago Mendes, coautor do estudo.
Assim, fica claro que a COP30 proporcionou à juventude as ferramentas, mas não garantiu os resultados. Um dos caminhos para que isso aconteça está na conclusão do estudo: “O desafio agora é a implementação nacional e a apropriação estratégica. Cabe aos movimentos juvenis, à sociedade civil e aos governos progressistas utilizar estes novos textos para exigir que os Planos Nacionais de Adaptação, as Contribuições Nacionalmente Determinadas e os fluxos financeiros climáticos respondam de forma concreta às necessidades e aspirações da geração que herdará o planeta moldado pelas decisões de hoje. O legado da COP30 para a juventude será determinado não pelo que foi escrito em Belém, mas pelo que será construído a partir dessas palavras nos próximos anos.”